Cartéis
Cartel é um dispositivo privilegiado para o trabalho em pequenos grupos na psicanálise de Orientação Lacaniana. É composto por três a cinco integrantes Mais-Um, a partir de um desejo de saber sobre algum tema em psicanálise, referido à clínica, teoria, política, ou nas conexões com outros campos de saber. O trabalho tem a duração de um a dois anos, quando o cartel é dissolvido, sendo as produções individuais apresentadas em um Jornada convocada exclusivamente para receber os resultados dos trabalhos, que são ofertados à comunidade analítica, também através das atas que reúnem tais textos.
A quem se destina:
Apesar de ser pensado com órgão de base da Escola e congruente com os princípios da formação do analista, o dispositivo está proposto a todos que queiram estudar com outros e reunir numa produção individual o fruto de sua pesquisa, não somente relacionada com a clínica psicanlítica, mas também na relação desta teoria com o vasto campo de saber com o qual ela se relaciona. Não é necessário ter um conhecimento prévio da psicanálise. O imprescindível é ter um desejo de saber em relação a ele e querer pô-lo a trabalho, endereçando-o a uma Escola do Campo Freudiano, onde o cartel se inscreve.
Do Mais-um:
Função essencial para manter a operatividade do grupo, o Mais-Um é um membro convidado pelos demais, sobre o qual recai, de entrada, um valor agalmático. Estando também movido por um interesse de saber sobre o tema proposto, é o responsável por empuxar a todos à tarefa que os reúne. Para levá-la adiante trabalha na contra mão dos efitos imaginários que a ele são conferido, necessariamente, tal como nos aponta as descobertas freudianas sobre os efeitos da psicologia das massas: todo grupo está sujeito aos efeitos de um líder do qual, colocado como ideal de eu, será esperado o saber, assim como será o depositário do amor e do ódio que seria conferido ao Pai.
Espera-se que o Mais-Um seja um integrante advertido de tais efeitos, para poder manejá-los, desconsistindo o lugas do líder e também das identificações horizontais, que são as fontes das obscenidades nos grupos, tal como nos aponta Lacan. O Mais-Um também tem a imcubência de inscrever o cartel na Escola, assim como a de dissolvê-lo, quando as condições de trabalho se afastam da possibilidade de levar a tarefa a seu termo.
Em que se fundamenta:
Marcando a oposição de Jacques Lacan ao narcisimo ds pequenas diferenças presentes nos agrupamentos da IPA, é que ele inventa, quando funda sua Escola em 1964, uma nova forma de trabalho em pequenos grupos – o cartel. Proposto como órgão de base de sua Escola, tal dispositivo tem o nome oriundo da palavra latina cardo, que quer dizer dobradiça.
Sua estrutura, consonante com a do próprio sujeito, está calcada na topologia do nó borromeano, em que x (número de aros) mais 1 (qualidade borromeana) se enlaçam, preservando o fundamental para o desejo de cada um: o furo no saber. Incentivando a transferência de trabalho, e marcado por uma temporalidade em que o fim está posto de entrada, o cartel introduz o vivo na experiência de trabalho na Escola, enlaçando a política e a episteme com a lógica que sustenta o princípio mesmo da experiência psicanalítica.
Refererências bibliográficas:
JIMENES, S (org). O cartel: conceito e funcionamento na Escola de Lacan. Rio de Janeiro, ed. Campus, 1995.
Cinco variações do tema da “elaboração provocada” – Jacques-Alain Miller
O cartel e o discurso analítico – Laureci Nunes
Responsável: Soraya Santos Valerim – soraya@floripa.com.br

